Componente de campo do curso XL CAP adiada para maio

A APG tem vindo a acompanhar a evolução da pandemia provocada pelo vírus SARS-COV 2 e, em virtude da possibilidade do confinamento se manter até à Páscoa e de não se saber ainda quais as medidas a aplicar posteriormente, a Comissão Organizadora do XL CAP decidiu que o mais prudente é adiar a componente de campo do XL CAP, para o fim de semana de 28 e 30 de maio de 2021.

A segunda fase do XL CAP – Curso de Atualização de Professores em Geociências, intitulado “Por Terras do Jurássico”, estava prevista realizar-se presencialmente (e com uma componente quase exclusivamente de campo) de 9 a 11 de abril, depois da primeira fase ter decorrido por videoconferência em setembro de 2020.

Este curso de formação é organizado pela APG com a colaboração do Aspiring Geoparque Oeste – Terras do Jurássico.

A APG lamenta o adiamento do curso, mas considera ser esta a opção mais segura e proveitosa para todos. Para mais informações, contacte-nos através do email info@apgeologos.pt.

O oceano Atlântico está a abrir? E a Terra, é redonda?

Nas últimas semanas, temos sido bombardeados por um conjunto de “notícias” dando conta de que o oceano Atlântico está a abrir. Fico agradado por alguns jornalistas terem dado conta desta descoberta 60 anos depois de esta ter sido feita. Antecipo que na próxima semana comecem a surgir notícias de que a Terra é redonda. Isto teria alguma piada se não fosse dramático e revelador da baixa qualidade científica do jornalismo que se faz em Portugal. Nos tempos que atravessamos, com uma pandemia e o crescimento dos populismos negacionistas, isto é de uma perigosidade extrema. E a culpa não é apenas de alguns jornalistas. Há também uma enorme responsabilidade por parte da Academia e dos profissionais das respetivas áreas, que ainda não perceberam que é muito importante que o conhecimento não fique fechado nas universidades, ou no interior de grupos profissionais entrincheirados na sua superioridade moral.

Este artigo publicado no Observador é um bom exemplo. Infelizmente, não é caso único, e segue a linha de muitos outros que têm sido publicados lá fora. Não obstante, este artigo vai um passo mais além, ao referir de forma forçada a palavra “sismos” no título para ver se chama um pouco mais a atenção e, talvez, alegadamente, para disfarçar a quantidade de disparates que o artigo contém. Este sugere, por exemplo, que a crusta oceânica tem centenas de quilómetros de espessura, que as placas tectónicas se estão a afastar muito mais depressa do que é suposto, que as placas ficam acumuladas no fundo do mar e que as profundidades do Atlântico terão 600 km (o que quer que isto queira dizer).

Esta vaga de notícias absurdas poderá vir a ser usada como um caso de estudo, pois são um ótimo exemplo de como não se escrever notícias. Quando se escreve é importante perceber, o mínimo que seja, acerca do que se está a escrever. Caso contrário, a coisa tem potencial para correr muito mal. E não me interpretem mal. Tenho consciência do quanto é hoje difícil escrever uma boa notícia, em que os textos têm de ser preparados a correr, em cima do joelho, nas redações dos jornais. Mas será que isso justifica dar um tiro de bazuca nos pés? Porque não fazer um telefonema rápido a um especialista na matéria como os bons jornalistas (que tenho esperança de que sejam a maioria) fazem?

Mas já que aqui estamos, permitam-me falar um pouco acerca do que interessa: a descoberta publicada na Nature. O artigo em causa apresenta um novo estudo geofísico realizado na zona da Dorsal Mesoatlântica, e mostra que, por baixo da zona de rift, e a cerca de 660 quilómetros no interior do manto, há uma anomalia até então desconhecida. É nesta zona que se localiza a transição entre o manto superior e o manto inferior. A anomalia em causa corresponde a uma elevação do manto inferior que parece sugerir que há um fluxo de material a ascender através desta descontinuidade, do manto inferior para o manto superior. Ora, porque é que isto é importante? Para o compreender vamos ter de voltar um pouco atrás no tempo.

Todos nós aprendemos na escola que um senhor chamado Alfred Wegener propôs no início do Século XX uma teoria que procurava demonstrar que os continentes se moviam e que já tinham estado todos juntos num grande supercontinente. Esta teoria ficou conhecida como deriva continental. Quando foi proposta, foi considerada uma ideia arrojada, pois implicava que a superfície do planeta estava em movimento, e que os continentes se moviam sobre um fluido. Ora, durante os 50 anos seguintes, pensou-se que tal não era possível. Ainda na primeira metade do Século XX, os cientistas perceberam que a maior parte do interior da Terra era sólido, incluindo o manto. Então, como é que rochas sólidas podiam fluir? Foi preciso o conhecimento avançar para se perceber que tal era possível. As rochas podem fluir. Mas o que poderia causar estes movimentos no interior da Terra, com magnitudes capazes de arrastar continentes?

Nos anos 30, o geólogo Arthur Holmes propôs que o movimento da superfície da Terra nada mais era do que uma expressão da convecção térmica do manto. Ou seja, o manto terrestre está quente e em movimento, um pouco como a superfície de uma panela cheia de sopa se move quando está a ferver. O material quente ascende e afasta o material que está à superfície, forçando-o a afundar noutros locais. Isto implicava que teria de haver locais na superfície do planeta onde este material estaria a ascender. No entanto, foi preciso esperar mais 30 anos para que tal fosse descoberto, no fundo do mar. A descoberta do alastramento oceânico. Também por esta altura, em meados dos anos 60 do século XX, os geocientistas começaram a aperceber-se de outras coisas importantes. A superfície do planeta parecia estar fragmentada em diversas placas rígidas que se moviam umas em relação às outras. Foi essa a grande epifania de Tuzo Wilson e que deu origem à teoria da tectónica de placas. Mas cedo se percebeu que havia um problema. As correntes de convecção pareciam não ser suficientes para fazer mover as placas. A teoria estava incompleta. A solução veio uns anos mais tarde, baseada em observações e cálculos, e mostrou que uma componente importante das correntes de convecção, e do movimento das placas, era gerada pelo próprio mergulho das placas tectónicas no interior do manto, devido ao seu peso. Um pouco como o ar frio que afunda na atmosfera, ou as correntes oceânicas frias que afundam junto aos polos, gerando correntes de convecção descendentes. As observações comprovam esta ideia, pois as placas tectónicas que estão a mergulhar em zonas de subducção estão a mover-se cerca de três vezes mais rápido do que as outras. Estas estão a puxar-se a si próprias!

Ora, mas se há material a mergulhar no interior do planeta, tem de haver locais onde o material esteja a subir. É um pouco como um copo cheio de água, se tentarmos encher com mais água, alguma água vai ter de sair. Neste contexto, há (pelo menos) duas questões que ainda estão por responder. Até que profundidade as placas frias conseguem mergulhar? E, a partir de que profundidade o material quente ascende? Posto de outra forma, será que todo o manto está em convecção, ou será que o manto inferior e o manto superior estão separados, cada um com as suas células de convecção? É precisamente aqui que está a novidade do tal estudo publicado na Nature. Este mostra que, pelo menos na zona estudada, parece haver evidências de material a ser transferido do manto inferior para o manto superior, o que parece sugerir que há, de facto, uma ligação entre a convecção do manto inferior e a convecção do manto superior. Mas os autores vão um passo mais além, e especulam que este material em ascensão poderá ser um motor importante do movimento das placas tectónicas. Infelizmente, observar um fluído em movimento nem sempre é suficiente para concluir qual a origem do seu movimento. Isto é, qual a sua força motriz. É este o caso. No entanto, a importância deste estudo não deve ser descurada. Antes pelo contrário, é extremamente difícil obter este tipo de dados do interior da Terra, e, como tal, qualquer contribuição é valiosa e merece a nossa máxima atenção. Venham mais estudos como este! Mas menos notícias com disparates, por favor.

PS: Preferi não entrar na discussão atual acerca do que causa o movimento das placas, mas o meu entendimento é que tanto o afundar das placas frias como a ascensão de material quente contribuem para o movimento das placas. Sendo que os dados atuais mostram que a quantidade de movimento causada pelo afundamento das placas frias é um pouco superior (em cerca de duas a três vezes). Como dizia o outro: é fazer as contas.

Texto de João C. Duarte
Professor auxiliar na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa
Investigador no IDL – Instituto Dom Luiz