Dois sismos de magnitude acima de 3 relembram-nos deste perigo geológico

Nos dias 18 e 21 de março de 2021 foram sentidos dois sismos de intensidade IV na região de Lisboa e do Oeste. O primeiro, com uma magnitude de 4, teve o epicentro no Rio Tejo, junto à Póvoa de Santa Iria, tendo sido sentido num raio que se estende desde Setúbal até Peniche. Este terá sido gerado pela falha geológica (ou sistema de falhas) do Vale Inferior do Tejo que, com uma direção NNE-SSW, marca o contacto entre as colinas do Oeste e a Lezíria Ribatejana.

O segundo sismo teve uma magnitude de 3.1 e o seu epicentro localizou-se a NW de Leiria, tendo sido sentido num raio que se estende de Coimbra a Santarém. Este poderá ter sido gerado por uma falha associada ao sistema de falhas da Nazaré, que é constituído, nesta zona, por um conjunto de falhas geológicas conjugadas NE-SW e NNW-SSE.

Estes eventos sísmicos, apesar de menores, são importantes para nos relembrar que Portugal apresenta um conjunto significativo de falhas geológicas ativas no seu território continental, e não apenas na zona de fronteira de placas Açores-Gibraltar, ao largo da costa sul portuguesa. De especial relevância é a falha do Vale Inferior do Tejo, que terá sido responsável pelo sismo de Benavente de 1909, que, com uma magnitude 6, causou cerca de 40 mortes. Esta falha terá também sido a responsável pelo grande sismo de Lisboa de 1531 que destruiu a cidade e causou cerca de 30.000 fatalidades. Estima-se que o sismo de 1531 terá tido uma magnitude entre 6.5 e 7 e uma intensidade que pode ter atingido os IX, ou mesmo X, na escala de Mercalli modificada, o que é um número bastante elevado para um sismo intraplaca. Este é o sismo conhecido de maior magnitude que ocorreu no território continental e em Lisboa terá mesmo tido uma intensidade superior ao sismo de 1755.

Mas o que quer isto dizer? O primeiro ponto a salientar é que Portugal é sem dúvida um país com sismos. Basta olhar para a página do IPMA para nos apercebermos de que há várias dezenas de pequenos sismos todos os meses, a maioria deles com magnitudes entre 0 e 2 (a que chamamos microssismicidade). De vez em quando, e com alguma regularidade, ocorrem sismos com magnitudes na ordem dos 3 ou superiores. Uma parte significativa destes sismos ocorre na zona de fronteira de placas Açores-Gibraltar, ao largo da costa Sul e Sudoeste de Portugal, pelo que muito raramente são sentidos. No entanto, há também um número significativo de eventos sísmicos ao longo do território continental português e na sua margem Oeste.

Todos sabemos que os sismos na fronteira de placas são comuns e devem-se ao movimento das placas tectónicas. Mas qual será o significado dos sismos que ocorrem ao longo da Margem Oeste Ibérica, claramente fora da fronteira de placas? Segundo os geólogos, a resposta é simples. Neste local está a ocorrer concentração de tensão que é acomodada sob a forma de deformação (ao longo de falhas) e, atingindo-se o limite de resistência para este sistema geológico, o estado equilíbrio é ultrapassado e esta tensão é libertada sob a forma de energia sísmica (os sismos).

Mas porquê aqui e qual a origem destas forças? Bem, a Geologia explica, mas aqui a resposta já não é tão simples. Não há dúvida de que a maior parte da deformação que ocorre ao longo da faixa Atlântico-Mediterrânea é causada pela movimentação para Norte do continente africano e da sua colisão com a Eurásia. Foi este o processo que deu origem aos Alpes, à Serra da Arrábida e à Serra da Estrela. Mas porque é que atualmente uma parte significativa desta deformação se localiza na faixa costeira Oeste da Ibéria? Uma interpretação possível é que a nossa margem (Atlântica) poderá estar a passar por um processo de reativação. Ou seja, uma fase de transição em que uma margem do tipo Atlântico (de um oceano que está a abrir e não tem zonas de subducção) poderá estar a transformar-se numa margem do tipo Pacífico (de um oceano com zonas de subducção e que está a fechar). Este é um passo essencial na história de vida de um oceano. É sabido que os oceanos nascem, crescem e acabam por desaparecer. Este processo cíclico é conhecido por Ciclo de Wilson, em honra de Tuzo Wilson (1908-1993), geólogo e geofísico canadiano e reconhecido como o pai da teoria da tectónica de placas e que cedo se apercebeu da sua existência. O Atlântico está precisamente a atravessar a meia idade e é expectável que em breve comece a entrar na sua fase terminal. Geologicamente falando, claro!

Uma última questão. Ouve-se muito por aí que é bom haver muitos sismos pequenos, porque estes libertam tensões e evitam os sismos grandes. Será que isto é verdade?

Infelizmente, haver muitos sismos pequenos é relativamente irrelevante no que respeita à ocorrência de sismos grandes. Isto é facilmente compreendido se tivermos em conta que a escala de magnitudes é uma escala logarítmica. Por exemplo, um sismo de magnitude 2 é 30 vezes mais forte (em termos de energia libertada) do que um sismo de magnitude 1. Um sismo de magnitude 4 é cerca de 30 mil vezes mais forte do que um sismo de magnitude 1. E um sismo de magnitude 8 é 30 mil milhões de vezes mais forte do que um sismo de magnitude 1! Isto quer dizer que precisaríamos de 30 mil milhões de sismos de magnitude 1 para libertar a energia correspondente a um sismo de magnitude 8. Por outras palavras, a energia libertada por um sismo de magnitude 1 é cerca de 0,0000000001 % da energia libertada por um sismo de magnitude 8.

Ora, se tivermos cerca de dez sismos de magnitude 1 por dia, precisaríamos de esperar 3 mil milhões de dias para libertar a energia correspondente a um sismo de magnitude 8. Isto é, precisaríamos de esperar 4 milhões de anos! Este exercício demonstra que a energia libertada por pequenos sismos é insignificante quando comparada com a energia libertada num sismo grande. Isto faz sentido. Notem que o sismo que ocorreu em Lisboa no passado dia 18 de março foi sentido em Cascais, mas o sismo que ocorreu ao largo do Cabo de São Vicente em 1755 foi sentido em Paris!

Outro mito que por aí circula é que sismos grandes como o de 1755, de magnitude acima de 8, acontecem de 250 em 250 anos. Talvez os sismos sentidos em 1531, 1755 e 1969 tenham contribuído para esta ideia. No entanto, esta ideia simplicista ignora duas coisas importantes que a geologia já conseguiu esclarecer. Os sismos de 1531 e 1755, por exemplo, tiveram origens completamente diferentes. O primeiro localizou-se no Tejo enquanto que o segundo teve origem ao largo do Cabo de São Vicente (sendo que a falha do Vale Inferior do Tejo poderá ter mexido em 1755). O outro dado que também é ignorado é que, só no século XX, ocorreram ao largo da nossa costa três sismos de magnitude aproximadamente 8! Em 1941, em 1974 e em 1969. Felizmente estes três sismos ocorreram suficientemente longe da costa para não causarem danos maiores, mas, provavelmente, meramente por acaso!

Em jeito de conclusão, duas notas. A primeira é que ainda há muito que não sabemos acerca do que causa os sismos, especialmente nesta zona do globo. Será ainda preciso desenvolver muita investigação nesta área, e, em minha opinião, como geólogo e cidadão, Portugal não tem feito o suficiente. Especialmente se tivermos em conta que os maiores sismos no Atlântico e na Europa nos últimos séculos ocorreram no nosso território. É a nossa herança geológica. A segunda nota é que é certo que sismos como o de 1531 e o de 1755 irão voltar a acontecer. Não há nada que possamos fazer para os evitar, e acreditar muito que estes não irão acontecer não nos ajuda em nada. A única coisa que podemos fazer é estar preparados. E não estamos!

Texto de João C. Duarte
Professor universitário, Universidade de Lisboa e Associação Portuguesa de Geólogos

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